Esta é uma pergunta que eu venho fazendo em conversa com gestor, com RH, com gente que chega ao consultório sem saber direito por que chegou. Ninguém responde de imediato. Eu também não tenho a resposta fechada.
Mas em 2025 apareceu um número que dá uma pista, e ele não é confortável.
O Ranking que não queríamos
Santa Catarina fechou o ano com a maior taxa de afastamentos por transtornos mentais e comportamentais do país: 507 a cada 100 mil habitantes. São 39.441 pessoas. Somos o quinto estado em número absoluto e o primeiro quando se corrige por população. No Brasil inteiro foram 546.254 benefícios concedidos, o maior volume já registrado. Os dados são do Ministério da Previdência Social cruzados com o IBGE, e eu li duas vezes antes de aceitar.
Joinville não está fora disso. Quem trabalha com saúde ocupacional aqui vê a curva subindo, e quem atende clinicamente vê chegando gente que dez anos atrás não chegaria, quase sempre esbaforidas das correrias no trabalho.
É um dado que ninguém aqui vai querer colocar em outdoor. Precisa ser olhado mesmo assim, e principalmente por quem toma decisão.
Uma mudança que eu notei de perto
Não é uma novidade que quem procura o Instituto Práxis para estruturar cuidado em saúde mental na empresa, costuma ser do RH.
O que mudou é que, com frequência, essa pessoa também está no limite. Acumulou função depois da última reestruturação, ficou responsável por um tema que não domina, tem prazo de NR-1 e orçamento apertado, e é de quem todo mundo espera equilíbrio.
Vale registrar que RH também adoece. Ninguém fica de fora da própria empresa.
O argumento que costuma funcionar melhor do que o apelo
Já tentei muitas formas de levar esse assunto para uma mesa de gestão. A que funciona não é a comovente.
Uma empresa existe para crescer, fechar negócio e dar lucro. Não tenho problema nenhum com isso, e desconfio de quem finge ter. Só que crescer, fechar negócio e dar lucro são coisas que pessoas fazem. Alguém precisa comprar bem, vender bem, cobrar na hora certa, gerenciar sem quebrar o time.
Nada disso acontece direito com gente adoecida.
Um comprador esgotado erra especificação. Um vendedor exausto perde follow-up. Quem cobra sem energia deixa inadimplência correr. E um gestor no limite toma a decisão apressada que custa seis meses de retrabalho. O adoecimento raramente aparece na planilha com o nome dele. Aparece com o nome de outra coisa.
O que a NR-1 está tentando dizer
Muita gente leu a norma como burocracia nova. Eu leio como uma tentativa, meio tardia, de nomear algo que já estava acontecendo.
A NR-1 reconhece que existe adoecimento no trabalho e adoecimento do trabalho. A preposição é o assunto inteiro.
Adoecimento no trabalho é a pessoa que chega com uma história, uma perda, uma dor que veio de fora e atravessa o expediente. Adoecimento do trabalho é quando o próprio desenho da coisa produz o sofrimento: a jornada, o ritmo, a meta, a falta de previsibilidade, a chefia que humilha, o processo que muda toda semana.
O primeiro caso pede acolhimento. O segundo pede mudança de desenho, e nenhuma sessão de terapia resolve.
Confundir os dois é o erro mais caro que eu vejo, e é fácil de cometer, porque a pessoa que adoece é a mesma nos dois casos.
Por que isso mexe tanto
Existe uma coisa que a clínica ensina cedo e que a gestão às vezes demora a aceitar.
O trabalho não é só onde a gente passa o dia. Ele nos atravessa e nos constitui. É de onde vem boa parte do nome que a pessoa dá para si mesma, do lugar que ela ocupa na família, do que ela responde quando perguntam quem ela é. Por isso um processo mal desenhado não gera só cansaço, mexe em identidade. E por isso alguém aguenta dez anos de rotina pesada e se desorganiza numa semana em que foi tratada como número.
Não sei se isso vale igual para todo setor. Na indústria eu vejo de um jeito, no serviço eu vejo de outro, e tem coisa aí que ainda não entendi.
Perspectiva
Santa Catarina gosta de aparecer em ranking, e com alguma razão. Somos bons nisso. Educação, exportação, qualidade de vida, competitividade, a gente coleciona primeiro lugar e comenta no grupo da família.
Esse aqui é um em que a gente não pode estar.
Voltando à pergunta do começo: o custo da correria não vem como fatura. Vem como afastamento, como turnover, como erro caro, como gente boa que sai sem explicar direito por quê.
E problema de organização do trabalho é problema de processo. Processo é exatamente a coisa que catarinense sabe consertar quando decide olhar.
André Veridiano — Psicólogo, CRP 12/15985. Fundador da Práxis: Diagnóstico de Riscos Psicossociais (NR-1), plantão psicológico in company e convênio em saúde mental. Presencial no Norte Catarinense, online para todo o Brasil.